DOMCE 25/03/2024 - Diário Oficial dos Municípios do Ceará
Ceará , 25 de Março de 2024 • Diário Oficial dos Municípios do Estado do Ceará • ANO XIV | Nº 3424
www.diariomunicipal.com.br/aprece 128
estabelecidas, que ocupa um espaço que não é só geográfico, mas que também dá valor, ou seja, ela é valorizada de acordo com os padrões de seu
contexto familiar e de acordo com sua própria inserção nesse contexto. (Kramer, 1986, p. 79)
Assim, a criança que se torna sujeito de um processo passa a ter e a fazer história, mesmo concebida e tratada diferentemente pela sociedade e em
distintos momentos e lugares da história humana:
[...] portanto, a concepção de criança na qual acreditamos é a de que ela é um ser histórico, social e político, que encontra nos outros, parâmetros e
informações que lhe permitem formular, questionar, construir e reconstruir espaços que a cercam. Apostamos numa concepção que não se fixa num
único modelo, que está aberta à diversidade e à multiplicidade que são próprias do ser humano. (Kramer, 1999, p. 277)
A criança possui expectativas frente ao mundo, e sua expressão é percebida à medida que a sociedade volta o seu olhar para esse período da vida. É
preciso pensar em espaços para que ela possa viver sua curiosidade, sentir e estar no mundo. Sem esquecer que a criança é protagonista da prática
pedagógica, necessita de experiências e afeto para se desenvolver, é um ser que pensa e sente o mundo de um jeito que lhe é peculiar, capaz de
construir o conhecimento na interação com o meio e com as outras pessoas de forma ativa, a partir da criação de hipóteses sobre o que deseja
aprender.
Conforme Rinaldi (2012, p. 156): “aquilo que pensamos sobre as crianças se torna, então, um fator determinante na definição da sua identidade ética
e social, de seus direitos e dos contextos educacionais que lhe são oferecidos.”
CONCEPÇÃO DE INFÂNCIA
A concepção de infância nos dias atuais é bem diferente de alguns séculos atrás. É importante salientar que a visão que temos de criança foi
historicamente construída, por isso é possível perceber os grandes contrastes em relação ao sentimento de infância no decorrer dos tempos.
Nessa perspectiva, o sentimento de infância (Ariès,1981), que caracteriza a criança, a sua essência enquanto ser, o seu modo de agir e pensar, que se
diferencia do adulto, portanto, merece um olhar mais específico.
Respeitar a infância exige a compreensão do outro, como alguém diferente de nós, que pode nos dizer o que realmente é, e do que realmente precisa.
Mas para isso precisamos ouvi-las e entender que todo ser humano, independente de faixa etária, de característica fenotípica, de condição econômica
e de seus hábitos é um ser único e carrega consigo todas as possibilidades da vida.
Hoje, a criança é vista como um sujeito de direitos, situado historicamente e que precisa ter as suas necessidades físicas, cognitivas, psicológicas,
emocionais e sociais supridas, o que caracteriza um atendimento integral e integrado da criança. Ela deve ter todas as suas dimensões respeitadas.
Considera-se a infância como um momento de formação de valores, a constituição da criança como sujeito, o estabelecimento das relações sociais e
o tratamento das questões de vínculo, segurança e afeto.
A infância é um período de descobertas, vivências relacionadas com a compreensão da construção e reconstrução do conhecimento de forma alegre,
espontânea, vibrante, comunicativa, criativa, interativa em um universo repleto de diversidade e complexidade humana.
Conforme, Barbosa (2007), as novas perspectivas sobre as culturas da infância, as culturas familiares e a cultura escolar podem, certamente, nos
auxiliar a pensar em um novo modelo de escolarização de qualidade para as crianças brasileiras, que entrelace culturas e não as negue. Uma escola
que seja plural, mas não excludente. Uma escola que possa “escutar” as crianças e construir-se para e com elas. Que escute o barulho do confronto,
faça emergir os mal-entendidos, compreenda as diferenças nos modos de recepção e significação, ajuste as lógicas de cada grupo cultural, analise as
relações de poder e hierarquia entre eles, proponha processos de inserção social de todos.
OBJETIVOS DA PROPOSTA PEDAGÓGICA
A proposta pedagógica das instituições de Educação Infantil deve ter como objetivo garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação
e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao
respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças.
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Eixos do currículo
As práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira.
Garantir experiências que
• Promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de experiências sensoriais, expressivas, corporais que possibilitem
movimentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança;
• Favoreçam a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o progressivo domínio por elas de vários gêneros e formas de expressão: gestual,
verbal, plástica, dramática e musical;
• Possibilitem às crianças experiências de narrativas, de apreciação e interação com a linguagem oral e escrita, e convívio com diferentes suportes e
gêneros textuais orais e escritos;
• Recriem, em contextos significativos para as crianças, relações quantitativas, medidas, formas e orientações espaço temporais;
• Ampliem a confiança e a participação das crianças nas atividades individuais e coletivas;
• Possibilitem situações de aprendizagem mediadas para a elaboração da autonomia das crianças nas ações de cuidado pessoal, auto-organização,
saúde e bem-estar;
• Possibilitem vivências éticas e estéticas com outras crianças e grupos culturais, que alarguem seus padrões de referência e de identidades no
diálogo e conhecimento da diversidade;
• Incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o questionamento, a indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo físico
e social, ao tempo e à natureza;
• Promovam o relacionamento e a interação das crianças com diversificadas manifestações de música, artes plásticas e gráficas, cinema, fotografia,
dança, teatro, poesia e literatura;
• Promovam a interação, o cuidado, a preservação e o conhecimento da biodiversidade e da sustentabilidade da vida na Terra, assim como o não
desperdício dos recursos naturais;
• Propiciem a interação e o conhecimento pelas crianças das manifestações e tradições culturais brasileiras;
• Possibilitem a utilização de gravadores, projetores, computadores, máquinas fotográficas, e outros recursos tecnológicos e midiáticos.
As creches e pré-escolas, na elaboração da proposta curricular, de acordo com suas características, identidade institucional, escolhas coletivas e
particularidades pedagógicas, estabelecerão modos de integração dessas experiências.
Fechar